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Feb
18th
Wed
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A sra. Nimkin, chorando na cozinha: “Por que? Por que? Por que ele fez isso conosco?” Esta ouvindo? Não se trata do que nós lhe fizemos, oh, não, isso nunca, e sim - por que ele fez isso conosco? Conosco, que lhe teríamos dado em troca nossos braços e pernas para fazê-lo feliz e torná-lo um pianista famoso! Com efeito, como podem ser cegos assim? Como podem as pessoas ser tão abismalmente estúpidas e continuar vivendo? Acredita que isso possa ser assim? Como é que podem ser, na realidade, equipados com toda essa maquinaria, um cérebro, uma medula espinhal, e os quatro orifícios para os ouvidos e olhos - um equipamento tão admirável, sra. Nimkin, quanto o da televisão em cores - e ainda ir pela vida afora sem a menor noção a respeito dos sentimentos e anseios de qualquer outro afora eles mesmos? Sra. Nimkin, sua titica, me lembro da senhora, eu tinha só seis anos, mas me lembro da senhora e o que matou o seu Ronald, o futuro pianista, é obvio: foi O SEU MALDITO EGOISMO E ESTUPIDEZ! “Todas as lições que lhe de os”, lamentava-se a sra. Nimkin… Oh, veja, veja, por que continuo desta maneira? Talvez ela tenha boa intenção, certamente que deve ter - numa hora de tristeza, o que posso esperar dessa gente simples? Só que, na sua dor, ela não tem outra coisa que dizer e por isso fala nessa história de todas as lições que eles deram a alguém que agora é um cadáver. O que são, afinal de contas, essas mulheres judias que nos criaram? Na Calábria, a gente vê as suas sofredoras réplicas, sentadas feito pedras nas igrejas, engolindo aquela hedionda lengalenga católica; em Calcutá, elas esmolam nas ruas, ou, se tem sorte, estão algures, em algum campo poeirento, atreladas a um arado… Só na América, rabino Golden, é que essas camponesas, nossas mães, tingem os cabelos aos sessenta e andam para cima e para baixo na Collins Avenue, na Flórida, de calças três-quartos e estolas de vison, dando opinião sobre tudo que é assunto. Não é culpa delas terem recebido o dom da fala - olhe, se as vacas falassem como elas, diriam coisas idiotas. Sim, sim, talvez a solução seja esta: considerá-las como vacas que receberam o dom da fala e do mah-jongg. Por que não haveremos de ser condescendentes na nossa maneira de pensar, hein, doutor?
— Philip Roth
O complexo de Portnoy