Jul
5th
Tue
5th
Vivestes até agora nadando e flutuando, vinde morrer no porto. Destes vossa vida à luz, dai esta à sombra. É impossível abandonar vossas ocupações se não abandonares seus frutos. Por isso desfazei-vos de toda preocupação com o nome e a glória. Há o perigo de que o clarão de vossas ações passadas vos ilumine demais e vos siga até em vossa toca. Abandonai junto com as outras volúpias essa que vem da aprovação de outrem. E quanto a vossa ciência e competência, não vos preocupeis, elas não perderão seu efeito se vós mesmos estais valendo mais por causa delas. Lembrai-vos daquele a quem se perguntava com que finalidade se esforçava tanto numa arte que só podia chegar ao conhecimento de poucas pessoas: ´Bastam-me poucos´, respondeu, ´basta-me um, basta-me nenhum.´ Ele disse a verdade: vós e um companheiro são teatro suficiente um para o outro, ou vós para vós mesmos. Que o público vos seja um, e um vos seja todo o público. É vil ambição querer tirar glória da própria ociosidade e do próprio esconderijo. É preciso fazer como os animais, que apagam seu rastro na porta da toca. O que deveis procurar não é mais o que o mundo fala de vós mas como deveis falar a vós mesmos. Retirai-vos em vós, mas preparai-vos primeiramente para vos receber. Seria loucura fiar-vos em vós mesmos se não sabeis vos governar. Há maneira de falhar na solidão, como em sociedade, até que tenhais vos tornado alguém diante de quem não ousaríeis claudicar, e até que tenhais vergonha e respeito por vós mesmos, obversentur species honestae animo: [que se apresentem a vosso espírito nobres imagens:] representai-vos sempre na imaginação Catão, Fócio e Aristides, em cuja presença até mesmo os loucos esconderiam seus erros, e instituí-os como os controladores de todas as vossas intenções; se elas se extraviarem, a reverência por eles há de repô-las no rumo certo: eles vos conservarão nessa via de vos contentardes convosco, de nada tomar emprestado senão de vós, de reter e fortalecer vossa alma em cogitações precisas e limitadas em que ela possa se comprazer; e, tendo ouvido os verdadeiros bens de que gozamos à medida que os compreendemos, contentar-vos com eles, sem desejar prolongar a vida nem o nome.
— Conselhos extraídos das epístolas de Sêneca a Lucílio, citados livremente por Montaigne no ensaio ´Sobre a solidão´, in: Os ensaios: uma seleção, Penguin-Companhia (2010), (via ranchocarne)