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Aug
27th
Thu
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A sala de estar para onde ele me conduziu era simples, bem arrumada e acolhedora: um grande tapete circular artesanal, algumas poltronas, um velho sofá, uma comprida parede forrada por estantes cheias de livros, um piano, um toca-discos, uma mesa de carvalho com pilhas de revistas e publicações sistematicamente arrumadas. Acima dos lambris brancos, as paredes amarelas tinham por única decoração meia dúzia de aquarelas, feitas por um amador, mostrando a velha casa de fazenda em diferentes épocas do ano. Além dos largos peitoris forrados com almofadas e das desbotadas cortinas de algodão meticulosamente abertas, pude avistar os galhos desfolhados de grandes bordos escuros e campos cobertos de neve. Pureza. Serenidade. Simplicidade. Isolamento. Toda a concentração, brilho e originalidade de uma pessoa preservados para a vocação extenuante, exaltante, transcendente. Olhando em volta, refleti: “É assim que viverei”.
— Philip Roth
Diário de Uma Ilusão
Apr
20th
Mon
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Paciência, tudo indica que ela não ligará, talvez por uma razão ou outra não lhe tenha sido possível, mas irá ao concerto, regressarão os dois no mesmo táxi como aconteceu depois do outro concerto, e, quando aqui chegarem, ele convida-la-á a entrar, e então poderão conversar tranqüilamente, ela dar-lhe-á finalmente a ansiada carta e depois ambos acharão muita graça aos exagerados elogios que ela, arrastada pelo entusiasmo artístico, havia escrito após o ensaio em que ele não a tinha visto, e ele dirá que não é nenhum Rostropovitch, e ela dirá sabe-se lá o que o futuro lhe reserva, e quando já irem a ir por um lado e os pensamentos por outro, então se verá se algo poderá suceder que valha a pena recordar quando formos velhos.
— José Saramago
Intermitências da Morte
Feb
18th
Wed
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Não seria ótimo, disse ela, não ter de regressar?
Não seria ótimo viver algum dia no campo com alguém de quem a gente realmente gostasse?
Não seria ótimo a gente simplesmente se levantar, cheio de energia, ao amanhecer, e ir dormir, extenuado, ao anoitecer?
Não seria ótimo ter uma porção de responsabilidades simplesmente passar o dia inteiro dando conta delas, sem perceber sequer que eram responsabilidades?
Não seria ótimo simplesmente não pensar na gente dias inteiros, semanas inteiras, meses inteiros em seguida? Usar roupas velhas, sem pintura, não ter que se aborrecer a toda hora?
— Philip Roth
O complexo de Portnoy
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A sra. Nimkin, chorando na cozinha: “Por que? Por que? Por que ele fez isso conosco?” Esta ouvindo? Não se trata do que nós lhe fizemos, oh, não, isso nunca, e sim - por que ele fez isso conosco? Conosco, que lhe teríamos dado em troca nossos braços e pernas para fazê-lo feliz e torná-lo um pianista famoso! Com efeito, como podem ser cegos assim? Como podem as pessoas ser tão abismalmente estúpidas e continuar vivendo? Acredita que isso possa ser assim? Como é que podem ser, na realidade, equipados com toda essa maquinaria, um cérebro, uma medula espinhal, e os quatro orifícios para os ouvidos e olhos - um equipamento tão admirável, sra. Nimkin, quanto o da televisão em cores - e ainda ir pela vida afora sem a menor noção a respeito dos sentimentos e anseios de qualquer outro afora eles mesmos? Sra. Nimkin, sua titica, me lembro da senhora, eu tinha só seis anos, mas me lembro da senhora e o que matou o seu Ronald, o futuro pianista, é obvio: foi O SEU MALDITO EGOISMO E ESTUPIDEZ! “Todas as lições que lhe de os”, lamentava-se a sra. Nimkin… Oh, veja, veja, por que continuo desta maneira? Talvez ela tenha boa intenção, certamente que deve ter - numa hora de tristeza, o que posso esperar dessa gente simples? Só que, na sua dor, ela não tem outra coisa que dizer e por isso fala nessa história de todas as lições que eles deram a alguém que agora é um cadáver. O que são, afinal de contas, essas mulheres judias que nos criaram? Na Calábria, a gente vê as suas sofredoras réplicas, sentadas feito pedras nas igrejas, engolindo aquela hedionda lengalenga católica; em Calcutá, elas esmolam nas ruas, ou, se tem sorte, estão algures, em algum campo poeirento, atreladas a um arado… Só na América, rabino Golden, é que essas camponesas, nossas mães, tingem os cabelos aos sessenta e andam para cima e para baixo na Collins Avenue, na Flórida, de calças três-quartos e estolas de vison, dando opinião sobre tudo que é assunto. Não é culpa delas terem recebido o dom da fala - olhe, se as vacas falassem como elas, diriam coisas idiotas. Sim, sim, talvez a solução seja esta: considerá-las como vacas que receberam o dom da fala e do mah-jongg. Por que não haveremos de ser condescendentes na nossa maneira de pensar, hein, doutor?
— Philip Roth
O complexo de Portnoy
Jan
26th
Mon
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Quando chegamos a Baños, ao entardecer, corri para o banheiro dos HOMBRES na estação de ônibus e fiquei em pé mijando, com fantástica potência, dentro do urinol fedorento. Me fez muito bem libertar o doloroso conteúdo da minha bexiga. E enquanto a minha dor dava lugar a uma felicidade parcial, pensei no quanto eu adorava mijar, e também espirrar, cagar, remover cera dos ouvidos ou tatu do nariz, ejacular e cuspir, e até mesmo vomitar, quando enjoado – qualquer coisa nessa linha. Podia ser que eu jamais fosse me tornar uma pessoa sábia ou decidida, mas pelo menos eu tinha a minha frente uma vida inteira de excreções e outras remoções, e diante da perspectiva de tanto prazer sem custo, moralmente neutro e fartamente disponível, como poderia lastimar minha vida nojenta sobre a Terra? Sou o veneno que há dentro de mim, pensei, e adoro me livrar dele!
— Benjamin Kunkel
Indecisão
Nov
25th
Tue
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Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. Não sentem nenhuma angustia ao ouvir o grito do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os “prazeres da carne”, na condição de que sejam insossos.
Mas, desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo a que se chama “os prazeres da carne”, justamente por serem insossos. Gostava de tudo que era tido por “sujo”. Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo estrelado…
— Georges Bataille
A História do Olho
Nov
1st
Sat
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Cipriano Algor aproximou-se da sepultura da mulher, três anos são já os que ela leva ali em baixo, três anos sem aparecer em parte nenhuma, nem na casa, nem na olaria, nem na cama, nem a sombra da amoreira–preta, nem sob o sol embraseado da barreira, não voltou a sentar-se a mesa nem ao torno, não retira as cinzas caídas da grelha nem vira as peças que estão a secar, não descasca as batatas, não amassa o barro, não diz, Assim são as coisas, Cipriano, a vida não tem mais do que dois dias para dar, e tanta gente houve que só viveu dia e meio, e outros nem tanto, já vês que não nos podemos queixar. Cipriano Algor não ficou mais de três minutos, tinha inteligência bastante para não precisar que lhe dissessem que o importante não era estar ali parado, com rezos ou sem rezos, a olhar uma sepultura, o importante foi ter vindo, o importante é o caminho que se fez, a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou, pior ainda, é porque esperas que te observem.
— José Saramago
A Caverna

* Um dos meus trechos preferidos de todo o sempre. Livro lido em idos de 2005.
Oct
30th
Thu
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O bebê, por outro lado, encarava Naomi com franca e extasiante admiração. Ela estava em uma idade (cerca de quatorze meses) na qual cada manhã representava nada mais que um triunfo do Departamento de Continuidade. O bebê ficava surpreso em ver objetos brutalmente similares, de cores similares, ocupando o mesmo lugar que ocupavam ontem. Mais do que isso, o bebê se deleitava (quase perplexo) com o fato de que os atores que interpretavam seus pais parecessem ter se lembrado, mais uma vez, das partes a eles imputadas.
— Will Self
Cock & Bull
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Há um ano ou dois eu e Loretta fomos a uma conferencia em Corpus Christi e eu me sentei ao lado dessa mulher que era esposa de alguém mais ou menos importante. E ela ficou falando que a ala da direita isso e a ala da direita aquilo. Não tenho nem mesmo certeza sobre o que ela queria dizer. As pessoas que eu conheço são na maioria apenas gente comum. Gente simples. Eu disse isso a ela e ela me olhou de um jeito estranho. Achou que eu estava dizendo uma coisa ruim sobre essas pessoas, mas é claro que isso é um grande elogio na minha parte do mundo. Ela continuou, e continuou. Por fim ela me disse o seguinte: Não gosto do rumo que este país está tomando. Quero que a minha neta possa fazer um aborto. E eu disse bem minha senhora não acho que precise se preocupar com o rumo deste país. Pelo que eu vejo não tenho muitas dúvidas de que ela não só vai poder fazer um aborto como vai poder fazer com que sacrifiquem a senhora. O que mais ou menos encerrou a conversa.
— Cormac McCarthy
Onde os velhos não têm vez